O Valor dos Valores

Os valores não são da empresa, eles estão na empresa, no coração dos homens. Se os valores da empresa estão em questão, então é necessário reconhecer que eles emergem no seio de cada grupo humano e não são ditados de fora.

Buscar a transferência de um valor (por exemplo, o serviço ao cliente) revela antes e, sobretudo, outros valores, ou seja, aqueles que surgem daquela ou daquela que reivindica e realiza a ação de transferir o serviço. É ilusório visar a mudança de valores dos assalariados, exceto se eles são adolescentes ou muito imaturos, À idade adulta, salvo experiências extremas ou traumáticas, o indivíduo não muda facilmente de valores. É muito complicado e perigoso, pois estes valores foram organizados num sistema complexo, pacientemente construído, cujo equilíbrio é ameaçado pela menor de todas as mudanças. A carta dos valores esbarra, enfim, num obstáculo.

Um único exemplo: a lealdade que encontramos sempre neste cardápio de regras. O que significa ser leal à empresa? Para um pode significar ser leal ao chefe direto; para outro, ao cliente, ou ao acionista ou, ainda, aos seus pares. Para um é obedecer às ordens, para outro é desobedecer às ordens se ela lhe parece desleal.

A empresa é o lugar onde os atores para finalidades e interesses divergentes aceitam colaborar temporariamente para atingir juntos objetivos intermediários que permitam a cada um, em troca, que atendam seus próprios objetivos. Ser leal a um dos atores pode significar uma falta automática de lealdade em relação a um outro. Na “vida real”, cada assalariado reinterpreta o valor “lealdade” segundo sua própria hierarquia de valores, e segundo a coerência que demonstram seus dirigentes entre os valores que eles professam e aqueles que praticam. E ninguém é irrepreensível neste último ponto, inclusive os grandes líderes.

Estamos condenados?

Sim, sem dúvida alguma, pelo dirigente que continua a acreditar que o tripé missão-visão-valor reforça sua liderança. Seus “seguidores” lhes passam a fatura todos os dias, mas ele se mantém cego à sua negação silenciosa: como em Jacques Prevért, eles dizem sim com a cabeça e não com o coração. Ele se lamentará a cada dia um pouco mais sobre a inconstância deles, sua fraca lealdade, sua falta de comprometimento, talvez de sua desonestidade. Sem compreender que ele tem os seguidores que merece.

Não. Não para aquele que aceita a empresa como uma convergência de atores, com valores em interação, fontes de tensão e conflito. Para aquele que compreende que os valores coletivos surgem, mas não são para serem analisados a priori. Que substitui seu discurso sobre valores por comportamentos concretos que “transpiram” respeito às pessoas e aos processos, sem impor ou professar uma moral. Que não se toma por um visionário e aceita rever com olho crítico (e junto aos outros atores) suas perspectivas e projetos para o futuro. Aquele, enfim, que renuncia ao serviço das cruzadas destrutivas de valores financeiros e humanos.

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